• 04.05.2017

    Falta de medicamento prejudica pacientes com hipertensão pulmonar

    Farmácia do estado está sem um dos remédios, que custa cerca de R$ 700 nas drogarias

    Francisca Adriana Souza Lopes tem 42 anos e não consegue resolver sozinha algumas tarefas do dia a dia, como forrar a própria cama, tomar banho e pentear os cabelos. Apesar de esses esforços serem considerados simples, para quem sofre de Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP), como Francisca, nada mais parece fácil. Nem mesmo conseguir remédios gratuitamente para tratar a doença, que é grave, rara, sem cura e caracterizada por falta de ar. Segundo pacientes, parte dos medicamentos não estava sendo fornecida pelo estado desde outubro e, por isso, o tratamento de muitos deles está prejudicado.

    Diagnosticada em 2015, Francisca recebe atendimento no Centro de Referência Piquet Carneiro, da Uerj, que fica no bairro São Francisco Xavier, Zona Norte do Rio. No caso dela, o médico receita uma combinação de dois medicamentos — bosentana de 125mg e sildenafila —, mas, de acordo com um protocolo do Ministério da Saúde, a Farmácia Estadual de Medicamentos Especiais (Rio Farmes) só pode fornecer um deles, pois “não é recomendado associar as duas substâncias por tempo indeterminado”. Francisca só tem autorização para pegar a bosentana de 125mg, que estava em falta. Nas drogarias, a caixa com 60 comprimidos pode custar mais de R$ 700.

    — Desde outubro a Rio Farmes só tem a bosentana de 62,5mg. O médico já deu receita para eu tomar dois comprimidos dessa dosagem, mesmo assim não consegui pegar o remédio — diz Francisca, que depende de doações para continuar sendo medicada. — Não entendo. Se o médico, especialista na doença, recomenda os dois medicamentos, como é que o ministério diz que não posso tomar? Essa hipertensão provoca muito cansaço, uma fadiga enorme. Fico presa em casa, estou de licença no trabalho e não posso fazer esforço. Dependo de ajuda para tudo.

    Coordenador do Centro de Referência e professor da Uerj, o pneumologista Rogério Rufino diz que a Hipertensão Arterial Pulmonar geralmente afeta mulheres de 20 a 50 anos, numa fase da vida que deveria ser bastante produtiva. Ele conta que, além de bosentana e sildenafila, também costuma receitar ambrisentana 5mg para os pacientes. Os três são vasodilatadores, recomendados de acordo com a evolução da doença.

    — A bosentana de 62,5mg geralmente é receitada para a adaptação do paciente, para saber se terá efeito colateral, por exemplo. Essa é uma doença crônica e progressiva. Os medicamentos têm classes funcionais, por isso é recomendada a associação deles. O Ministério da Saúde tem outro protocolo, mas soube que isso já está sendo revisado — disse o médico, acrescentando que ainda não há cura para o mal.

    Atualmente, mais de 70 pacientes com HAP estão em tratamento no Piquet Carneiro, que faz um trabalho multidisciplinar para melhorar a qualidade de vida deles, com enfermeiros, médicos e fisioterapeutas. Adriana Riguêtto, de 45 anos, está sob os cuidados da equipe e, como Francisca, não consegue pegar a bosentana de 125mg na Rio Farmes:

    — Tenho dificuldade de locomoção. Chego lá e não acho o remédio. Fica difícil — conta Adriana, que depende da filha de 18 anos até para tomar banho. — Boto um banco no box para poder me sentar. Mas não posso ficar sozinha. Há risco de ter apneia, cair, bater a cabeça.

    Adriana conta ainda que sua doença está progredindo e, por isso, o médico prescreveu uma nova medicação, que custa R$ 15 mil. Ela entrou na Justiça para ter o tratamento e obteve sentença favorável, mas terá que aguardar até 120 dias para começar a receber o remédio. Até lá, continuará dependendo de ajuda para manter a receita atual em dia.

    Em nota, a Superintendência de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos da Secretaria estadual de Saúde informou que o medicamento ambrisentana 10mg encontra-se disponível em estoque. A bosentana 125mg, que estava em falta, chegou na semana passada e está disponível. No entanto, a ambrisentana 5mg encontram-se em processo de aquisição.

    Segundo Rufino, na década de 1990 a sobrevida média de pacientes com HPA era de dois anos e meio a quatro anos. Mas, atualmente, esse prazo pode chegar a dez anos. Em alguns casos, quando o estágio da doença está avançado, é necessário o uso de oxigênio domiciliar. Algumas pessoas têm recomendação para transplante de pulmão, mas a cirurgia não é realizada no Rio, o que dificulta ainda mais o tratamento no estado.

    Fonte: Jornal O Globo.